Blog do Adriano Krzyuy

Para Além do Hype: Uma Análise Crítica do Uso da IA nas Empresas e na Sociedade


Vivemos um momento em que a inteligência artificial domina conversas, eventos corporativos, apresentações e decisões estratégicas. Mas, por trás da euforia, começam a aparecer sinais claros de que algo não vai bem no modo como profissionais e empresas estão adotando e entendendo essa tecnologia.

Há uma distância crescente entre o que se promete sobre IA e o que ela realmente entrega no ambiente real de negócios e na convivência cotidiana da sociedade com sistemas inteligentes. E ignorar essa distância é um risco que poucos estão dispostos a admitir.

1. Os limites de uma visão puramente estatística de inteligência

Nos últimos anos, a aposta dominante no setor de tecnologia foi simples: aumentar massivamente modelos, dados e poder computacional. A lógica era direta — se algo não funcionava, bastava ampliar a escala.

Mas esse caminho encontrou limites. Por mais impressionantes que sejam as capacidades de geração de texto, discurso e imagem, os sistemas atuais ainda tropeçam em raciocínio lógico, consistência, causalidade e confiabilidade.

Isso evidencia algo fundamental: não existe “inteligência” real quando não há compreensão do mundo, apenas correlação de padrões.

Esse tipo de IA é extraordinária para tarefas específicas, mas insuficiente para aplicações que exigem robustez, segurança e tomada de decisão crítica. Em vez de apenas escalar modelos, a discussão agora migra para integrar estruturas de raciocínio — combinação de aprendizagem estatística com representações simbólicas, algoritmos, conhecimento estruturado e generalização real.

É o início de uma mudança de paradigma.

2. A realidade nas empresas: muito entusiasmo, pouca transformação

Dentro das organizações, o discurso sobre IA ganhou força, mas a prática revela algo menos glamoroso:

  1. projetos começam sem objetivos de negócio claros;
  2. ferramentas são adotadas pelo impacto do marketing, não pela necessidade;
  3. métricas de valor real raramente são definidas;
  4. profissionais usam IA de forma esporádica, sem fluidez nem hábito;
  5. líderes se veem pressionados a “parecer inovadores”, não a resolver problemas.

O resultado é uma “IA de vitrine”: apresentações impressionantes, cases superficiais e relatórios exuberantes que mascaram a baixa transformação prática.

Enquanto isso, muita gente já demonstra exaustão e frustração com o uso de IA no dia a dia. A relação entre as promessas feitas e os resultados percebidos simplesmente não fecha.

3. A ilusão da inteligência: o risco de antropomorfizar máquinas

Uma das maiores confusões está na forma como descrevemos a IA. Palavras moldam percepção — e percepção molda decisões.

Quando chamamos modelos estatísticos de “inteligentes”, acabamos atribuindo características humanas que eles não possuem: intenção, compreensão, julgamento, consciência.

Essa antropomorfização cria expectativas irreais:

  1. tratamos respostas como verdades;
  2. projetamos “agentes” onde só existe cálculo probabilístico;
  3. confiamos demais em sistemas incapazes de entender contexto ou consequência;
  4. tomamos decisões importantes apoiadas em modelos que não compreendem o impacto de suas recomendações.

A linguagem importa, e a falta de precisão conceitual está trazendo impactos diretos na forma como a IA é usada nas empresas e na sociedade.

4. Quando ciência encontra cultura: como ideias tecnológicas são adotadas

O avanço da IA não é guiado apenas por técnica. Ele é profundamente moldado por fatores sociais:

  1. pressões de mercado por resultados rápidos;
  2. ciclos de hype que criam ondas de entusiasmo desproporcional;
  3. culturas organizacionais que priorizam aparência de inovação;
  4. narrativas simplificadas que escondem complexidades fundamentais.

Assim, tecnologias são adotadas com base no clima emocional do mercado, não na maturidade científica. Muitas decisões corporativas sobre IA são tomadas mais por ansiedade competitiva do que por estratégia.

É sociologia da ciência em ação — ideias florescem ou são ignoradas menos pela sua qualidade e mais pela sua ressonância cultural.

5. O caminho que se abre: maturidade, discernimento e propósito

Se existe um ponto central nesta análise, é simples:

A IA precisa deixar de ser tratada como espetáculo e passar a ser tratada como infraestrutura crítica de decisão.

Isso exige mudança de postura:

1. Compreensão profunda antes da adoção

Implementar IA sem entender limitações é um erro caro.

2. Menos hype, mais métricas

Cada projeto deve começar com indicadores claros de impacto e critérios de sucesso.

3. Cultura de senso crítico

Aceitar que a IA atual é poderosa, mas limitada. E que não há problema algum nisso.

4. Abertura para novas arquiteturas e novos paradigmas

A próxima geração de IA não virá apenas de escalar modelos atuais, mas de integrar diferentes formas de raciocínio, conhecimento e representação.


Conclusão: estamos entrando na era da IA consciente — não no sentido da máquina, mas da sociedade

A inteligência artificial continuará avançando. Mas a grande evolução que precisamos agora não é técnica — é cultural.

Profissionais e organizações precisam abandonar o encantamento ingênuo e adotar uma postura madura, estratégica e crítica. A pergunta não deve ser “qual ferramenta usar?”, mas sim:

“que tipo de inteligência queremos introduzir nas decisões que moldam nosso futuro?”

Essa reflexão não é apenas tecnológica. É ética, social, econômica e profundamente humana.