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O toque que ninguém viu

Portugal, Croácia e o que Michel Foucault ainda tem a dizer sobre a bola inteligente, a inteligência artificial e a docilidade dos nossos dias

Por Adriano Krzyuy e Agostinho Krzyuy

Foi nos acréscimos. Portugal vencia por 2 a 1, o relógio já jogava contra a Croácia, e então a bola entrou. O estádio explodiu naquele barulho antigo, quase animal, que o futebol produz desde antes de existir tecnologia alguma: o grito coletivo do gol. Jogadores correndo, torcida em pé, a vaga escapando das mãos portuguesas nos últimos segundos. Por um instante, tudo era como sempre foi. O gol era verdade porque todos o tinham visto.

E então veio o silêncio.

Não o silêncio da derrota, mas outro, mais estranho, que só existe há poucos anos: o silêncio da espera pelo veredito. Jogadores param, torcedores prendem a respiração, e o destino da partida deixa de estar nos pés de quem jogou para depender de sensores, câmeras e algoritmos. Segundos depois, o gol foi anulado. Um toque quase imperceptível na origem da jogada — impossível de ver a olho nu, invisível para a torcida, para os jogadores, para o juiz, para o bandeirinha, para a cabine do VAR e até para as câmeras em velocidade normal — havia sido detectado por um chip dentro da bola. Para aquele chip, aquilo era um toque. E, porque foi um toque para o chip, passou a ser um toque para toda a humanidade. A Croácia estava eliminada.

Ela aceitou. Saiu de campo. Fair play bonito. E, num certo sentido, estava certíssima.

Escrevemos este texto de dois lugares diferentes. Um de nós passou a vida com Michel Foucault, lendo e ensinando as maneiras pelas quais o poder se instala nos gestos mais banais da existência. O outro constrói, no dia a dia, exatamente o tipo de sistema que decidiu esse jogo: modelos de inteligência artificial, sensores, dados em tempo real. Pai e filho, filosofia e engenharia. Poucas vezes nossos dois ofícios se encontraram de forma tão precisa quanto naquele toque que ninguém viu. Porque o que aconteceu em campo não foi apenas um lance de futebol. Foi uma pequena cena, quase perfeita, de uma transformação que Foucault descreveu há meio século e que hoje já não cabe mais nos muros das prisões, das escolas ou dos hospitais. Cabe dentro de uma bola.

Do suplício ao sensor

Vigiar e Punir, publicado em 1975, abre com uma das cenas mais violentas da filosofia contemporânea: o suplício público de Damiens, em 1757, condenado a ser dilacerado em praça pública diante de uma multidão. Poucas páginas depois, Foucault apresenta o contraste — um quadro de horários de prisão, minucioso, silencioso, oitenta anos mais tarde. Entre uma coisa e outra, argumenta ele, deu-se a grande mutação do poder no Ocidente. Deixamos de punir com o espetáculo cruel do castigo, exibido no corpo do condenado para que todos vissem a força do soberano, e passamos a governar com outra coisa: a vigilância contínua, discreta, quase invisível, que não precisa mais rasgar corpos porque aprendeu a moldá-los.

O poder deixou de ser espetáculo e virou disciplina.

Guardadas as devidas proporções — e elas são enormes, ninguém está comparando a eliminação de uma seleção a uma execução —, o futebol viveu por mais de um século sob o regime do espetáculo. O gol era um acontecimento público e soberano: valia porque a multidão o testemunhava, porque o juiz apitava, porque a verdade nascia diante de todos, aos olhos de todos. Um erro de arbitragem era injusto, mas era humano, e por isso mesmo virava conversa, revolta, lenda, papo de boteco no dia seguinte. A verdade do futebol era uma verdade compartilhada e discutível.

O que assistimos em Portugal e Croácia foi a passagem desse regime para outro. A verdade do gol já não estava no que todos viram. Estava no que um sensor detectou. E, entre o rugido do estádio e o dado do chip, foi o dado que teve a palavra final. O espetáculo se calou para que a disciplina falasse.

O panóptico dentro da bola

O dispositivo central de Vigiar e Punir é o panóptico, aquela arquitetura de prisão imaginada por Jeremy Bentham em que uma torre central permite vigiar cada cela sem que o prisioneiro jamais saiba se, naquele momento, está sendo observado. O gênio perverso do desenho, para Foucault, é que ele torna o poder ao mesmo tempo visível e inverificável. O detento vê a torre, mas nunca vê o vigia. E, por não saber quando é observado, passa a se comportar como se estivesse sempre. A vigilância migra de fora para dentro. O prisioneiro se torna o próprio guarda de si mesmo.

Um estádio da Copa de 2026 é, tecnicamente, uma máquina panóptica levada a um requinte que Bentham nunca sonhou. A bola oficial carrega um sensor inercial que faz cerca de 500 leituras por segundo. Dezenas de câmeras de altíssima velocidade rastreiam continuamente dezenas de pontos do corpo de cada jogador. Uma inteligência artificial cruza tudo em tempo real e reconstrói digitalmente a jogada, milímetro a milímetro, milissegundo a milissegundo. Não há gesto que escape. Não há toque pequeno demais. O campo inteiro é, o tempo todo, uma cela iluminada por um olhar que os jogadores sabem existir mas não conseguem ver nem verificar.

E aqui está o ponto que a filosofia e a engenharia enxergam juntas: esse olhar não é um olho maior. É um olho de outra natureza. As câmeras do VAR, no fundo, ainda eram humanas — mostravam a um humano, numa tela, aquilo que outro humano poderia, em tese, ter visto. O chip não. O chip percebe o que nenhum olho humano, por melhor que seja, jamais poderia perceber. Ele não amplia a visão: ele institui um novo sentido, um sentido que só a máquina possui. E é com base nesse sentido, exclusivo dela, que a partida se decide.

A tecnologia não é neutra — e o "toque" prova isso

Há uma crença confortável, quase religiosa, de que a tecnologia é neutra: um instrumento que apenas mede fatos, sem opinião, sem interesse, sem escolha. Foucault passou a vida desmontando essa crença. Para ele, não existe saber inocente. Todo saber está enredado em relações de poder, e todo poder produz um determinado saber — é o que ele chamou de poder-saber. Os dispositivos disciplinares (o quadro de horários, o exame escolar, a ficha médica, o mapa da prisão) nunca foram ferramentas neutras que se poderia usar bem ou mal. Eles produziam um tipo específico de verdade e, com ela, um tipo específico de sujeito.

O chip na bola é uma máquina de produzir verdade. E a verdade que ele produz não é neutra: é uma decisão disfarçada de medição.

Pense no que significa "toque". Para um ser humano — jogador, juiz, torcedor —, tocar a bola é um acontecimento com espessura: tem intenção, tem sensação, tem consequência visível. Para o chip, toque é outra coisa completamente diferente: é um abalo, uma micro-oscilação inercial detectável 500 vezes por segundo, um tremor sísmico em escala que nenhum corpo humano habita. São dois conceitos de toque. Não são o mesmo fenômeno medido com mais ou menos precisão. São fenômenos distintos, com dimensões distintas, com fronteiras distintas.

Quando entregamos ao chip a autoridade de dizer o que é um toque, não escolhemos a versão "correta" e "objetiva" de um conceito que existia antes. Nós substituímos um conceito humano de toque por um conceito maquínico de toque — e fingimos que não fizemos escolha nenhuma. Foi essa troca, e não um fato bruto da natureza, que eliminou a Croácia. A técnica não descobriu uma verdade que estava lá; ela fabricou a verdade que passou a valer. E fabricar verdade é, desde sempre, a operação mais política que existe.

Dizer que a tecnologia não é neutra não é dizer que ela mente. É dizer que ela sempre parte de uma definição — do que conta como toque, do que conta como impedimento, do que conta como falta — e que essa definição carrega, embutida, uma escolha sobre o mundo. A neutralidade é justamente o disfarce mais eficaz dessa escolha. Quanto mais "objetivo" parece o sensor, menos discutimos o critério que ele aplica. E o que não se discute, governa.

Os corpos dóceis e o silêncio da Croácia

E a Croácia aceitou.

Este é, talvez, o momento mais foucaultiano de toda a cena — e o mais desconfortável. Foucault descreve o objetivo final da disciplina como a produção do corpo dócil: um corpo que é, ao mesmo tempo, mais útil e mais obediente. A disciplina, escreve ele, aumenta as forças do corpo em termos de utilidade econômica e diminui essas mesmas forças em termos de obediência política. O sujeito disciplinado não é reprimido à força. Ele consente. Ele internaliza a norma a ponto de já não ver nela uma imposição, mas uma evidência.

Os jogadores croatas saíram de campo sem revolta diante de um veredito que nenhum deles poderia ter percebido, verificado ou contestado. Aceitaram como justa uma decisão fundada num sentido que eles não possuem. Isso não é fraqueza — é fair play, e é digno. Mas é exatamente assim que o poder disciplinar funciona no seu ponto mais alto: não quando ele nos vence pela força, e sim quando nos convence a chamar de justiça aquilo que não temos meios de discutir. O corpo dócil não é o corpo derrotado. É o corpo que aceita.

E, sejamos honestos, todos nós somos a Croácia agora.

A tirania do milímetro

Havia, no futebol antigo, uma categoria preciosa que estamos perdendo: a dúvida. O "benefício da dúvida" no impedimento, o lance que "só a câmera lenta", o erro que "faz parte". A arbitragem humana convivia com uma margem, e essa margem era o espaço onde moravam a interpretação, o debate e, sim, a emoção do dia seguinte.

A sanção normalizadora, para Foucault, é o mecanismo pelo qual a disciplina mede cada desvio em relação a uma norma e o corrige. Quanto mais fina a medição, mais absoluta a norma. O impedimento semiautomático leva isso ao extremo: a norma se torna infinitamente precisa, e a dúvida desaparece. Não há mais margem. Há apenas o milímetro e o milissegundo. A linha do impedimento vira uma sentença geométrica, sem apelação e sem sombra.

Ganhamos precisão. Mas o que perdemos quando a norma não admite mais nenhuma ambiguidade? Perdemos o espaço humano onde a verdade era negociada. Perdemos a conversa de boteco do dia seguinte — que nunca foi só reclamação de torcedor, mas a forma social, coletiva e viva pela qual uma comunidade discute o que é justo. Um erro de juiz, aquele que ainda ontem era combustível de mesa de bar, era também um lembrete de que a verdade do jogo era nossa, humana, falível e por isso mesmo compartilhável. O sensor não erra — e, ao não errar, ele nos dispensa de discutir. Ele nos desengaja da escolha. E desengajar o sujeito de suas escolhas, boas ou más, é precisamente o que a disciplina sempre soube fazer melhor.

Muito além das quatro linhas

Se tudo isso ficasse dentro do campo, seria apenas uma curiosidade filosófica sobre o futebol. Mas não fica. O lance Portugal x Croácia é uma versão condensada, quase didática, de algo que já organiza a nossa vida inteira.

O trabalhador cujo teclado, cursor e tempo de tela são monitorados por um software que mede sua "produtividade" com uma granularidade que ele não vê nem controla. O consumidor reduzido a um escore de crédito calculado por um modelo que ninguém sabe explicar. O motorista avaliado por um algoritmo, o candidato filtrado por uma IA de recrutamento, o cidadão reconhecido por câmeras faciais numa esquina qualquer. Em todos esses casos, repete-se a mesma estrutura da bola inteligente: um sistema percebe algo que nós não percebemos, apresenta esse algo como neutro e objetivo, e emite um veredito que aceitamos — muitas vezes com o mesmo fair play silencioso dos croatas — porque não temos os sentidos necessários para contestá-lo.

A inteligência artificial aprofunda essa assimetria a um ponto inédito. O VAR ainda mostrava a um humano o que outro humano poderia ver. A IA de hoje produz verdades numa resolução acima da percepção humana — e, cada vez mais, acima da explicação humana. Não apenas não vimos o toque: muitas vezes nem o engenheiro que construiu o modelo consegue explicar exatamente por que o sistema decidiu o que decidiu. Contestar torna-se impossível não porque a máquina esteja certa, mas porque nos falta o próprio órgão dos sentidos com que ela opera. E onde não se pode verificar, resta consentir.

É essa a docilidade contemporânea. Não a de quem é forçado, mas a de quem entrega — de bom grado, aliviado, agradecido pela conveniência — as suas escolhas a dispositivos que prometem enxergar melhor do que ele. Trocamos o incômodo de decidir pela paz de ser decidido. E chamamos isso de progresso.

A pergunta que fica

Que não haja mal-entendido: não pregamos a revolta, nem o abandono da tecnologia, nem a nostalgia do juiz que errava. Um de nós, afinal, constrói esses sistemas e acredita neles. O ponto de Foucault nunca foi dizer que a disciplina é o mal e a liberdade o bem. Foi outro, mais sutil e mais difícil: tornar visível aquilo que se apresenta como neutro e inevitável. Mostrar que, por trás de cada medição que parece apenas descrever o mundo, há uma escolha sobre como o mundo deve ser — e um poder que se beneficia de que essa escolha não seja discutida.

Então a pergunta certa diante do chip na bola não é "a tecnologia tirou a emoção do jogo?". É mais incômoda: quem decide o que conta como toque? Quem escolheu que a verdade do futebol deve morar num sensor e não nos olhos de quem joga e assiste? E, sobretudo: até onde queremos levar essa lógica antes de perceber que ela já não fala mais de futebol?

Será mesmo que o VAR precisa ser tão fundo, tão microscópico, a ponto de anular no chip aquilo que nenhum ser humano no estádio foi capaz de perceber? Ou a nossa vida futebolística — e não só ela — vai ser, daqui para frente, um eletrocardiograma permanente, um scanner que registra tremores invisíveis e transforma cada um deles em sentença?

No fim, o placar foi simples. Portugal saiu feliz. A Croácia, nem tanto. Mas o que decidiu o jogo não foi Portugal, nem a Croácia, nem o juiz. Foi um pequeno abalo sísmico dentro de uma bola, medido por uma máquina que enxerga um mundo que nós não habitamos — e ao qual, sem grande resistência, já começamos a obedecer.

Foucault não viu um chip numa bola. Mas ele nos ensinou a reconhecer, no gesto mais banal, a forma silenciosa como o poder se instala. E talvez o mais foucaultiano de tudo, naquela noite, não tenha sido o gol anulado.

Tenha sido o silêncio com que todos aceitaram.


Agostinho Krzyuy é mestre em Filosofia das Ciências Humanas. Adriano Krzyuy é empreendedor e apaixonado pelas áreas de tecnologia e inteligência artificial.